Nem concorrência com instituições financeiras interrompeu expansão
As cooperativas de crédito colocaram em prática, durante a crise financeira global, uma das máximas do mundo dos negócios: aproveitar os momentos ruins para crescer. Enquanto o mercado de crédito encolhia no último trimestre de 2008, o volume de empréstimos das cooperativas crescia. Mesmo com a retomada do fluxo das operações por parte dos bancos no primeiro semestre de 2009, essas entidades continuaram expandindo os negócios.
De acordo com levantamento feito pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), a pedido do Estado, a carteira de crédito do setor apresentou expansão mensal constante em 2008. Em janeiro passado, o volume de recursos somava R$ 16,4 bilhões, valor que saltou para R$ 19,4 bilhões em agosto e manteve-se acima de R$ 21 bilhões nos três últimos meses do ano, período de maior retração na oferta de financiamento. "Os micro e pequenos empreendedores foram buscar outras fontes de crédito e as cooperativas absorveram parte do movimento", explica Silvio Giusti, especialista em mercados da OCB.
Cooperativas como a do município mineiro São Roque de Minas chegaram a usar recursos próprios para manter o fluxo de financiamento para seus clientes. "Na hora da crise é que a gente tem de atender o cooperado", afirma João Carlos Leite, presidente da entidade.
A retomada dos financiamentos por outras instituições financeiras não impediu que a carteira de crédito das cooperativas continuasse a crescer. Segundo a OCB, as operações de crédito das cooperativas somaram R$ 22,1 bilhões em junho.
Parte dessa evolução tem sido puxada pelas cooperativas de crédito de livre admissão. Essa modalidade tem um horizonte mais amplo de atendimento, pois não é obrigada a operar com um segmento específico ou um único setor da economia. Autorizadas a funcionar desde 2003, essas cooperativas até junho já somavam 164.
Segundo Giusti, a "transformação" de antigas cooperativas de crédito rural em livre admissão deve fortalecer a expansão. Em 2004, havia 475 cooperativas de crédito rural no Brasil, número que se reduziu para 375 em dezembro do ano passado. "A maioria delas migrou para o ambiente de cooperativas de crédito de livre admissão, potencializando sua atuação", explica.
As cooperativas de livre admissão administram cerca de 29% dos ativos totais do segmento - que totalizaram R$ 47,8 bilhões em junho - e respondem por 40% das operações de créditos, 40% dos depósitos e 28% do patrimônio do setor, segundo dados da OCB.
Em São Roque de Minas, operação no lugar de banco
Até hoje, a cidade não tem agência bancária, mas a cooperativa conta com mais de 8,5 mil associados, com operações em São Roque e em mais quatro municípios vizinhos
A história de São Roque de Minas se confunde com seu "morador" mais ilustre, o rio São Francisco, que nasce na Serra da Canastra, onde o pequeno município mineiro está encravado. No universo do cooperativismo de crédito, entretanto, a antiga terra dos índios cataguases tem história própria.
A cidade de pouco mais de 6 mil habitantes, a 320 quilômetros de Belo Horizonte, não tem agência bancária desde 1991. Mas os moradores não deixaram de ter acesso aos serviços tradicionalmente oferecidos pelos bancos, como conta corrente, poupança e linhas de financiamento ao setor agrícola e os demais segmentos da economia local.
Esses serviços têm sido garantidos pela cooperativa fundada e presidida por João Carlos Leite, o "Joãozinho Messias", que, em parceria com outros produtores rurais, abriu a cooperativa no início da década de 1990.
"Nenhum banco queria entrar no município, então a gente resolveu formar a cooperativa e atender os produtores rurais e a comunidade", explica.
Até hoje, a cidade não tem agência bancária, mas a cooperativa conta com mais de 8,5 mil associados, com operações em São Roque e em mais quatro municípios vizinhos.
"A partir de 2004, depois de atingirmos determinado estágio de organização e gestão, o Banco Central liberou abrir o estatuto e hoje trabalhamos com todos os setores produtivos", diz Leite.
As cooperativas de crédito operam em 40% dos 850 municípios do Brasil que não contam com uma agência bancária, segundo a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB).
Em São Roque, a cooperativa oferece do microcrédito até operações de proteção para os produtores de café no mercado futuro da BM&FBovespa, além de bancar investimentos sociais, como o acesso à internet nas escolas rurais da região.
As operações de crédito da cooperativa mineira, que somaram R$ 24,1 milhões em 2007, atingiram quase R$ 32 milhões em junho desse ano.
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